© Filipa Brito

As memórias do Bolhão regressam no momento de meter a chave à porta

20 de novembro de 2021

Entrega das chaves aos inquilinos dos estabelecimentos do exterior do Mercado do Bolhão está praticamente concluída. A obra de restauro e modernização deste ícone da cidade avança a bom ritmo e cresce a expectativa do reencontro entre comerciantes e clientes.

 

O bulício da cidade desenrola-se em torno do Mercado do Bolhão: há pessoas que caminham apressadas, outras que passeiam tranquilamente, quem aguarde pelo autocarro ou simplesmente desfrute do sol num fim de tarde de outono. E é impossível ignorar o imponente edifício que vai retomando o seu antigo esplendor. Em breve voltará a ser possível o reencontro entre comerciantes e clientes, à medida que decorrem os trabalhos de restauro e modernização deste espaço incontornável da cidade do Porto.

 

O caminho está a ser feito: a entrega das chaves aos inquilinos dos estabelecimentos do exterior do Mercado do Bolhão está praticamente concluída, com 22 das 26 já na posse dos respetivos donos. A mais recente a ser entregue foi a da Relojoaria Mendonça.

 

“Começámos em julho a entregar as chaves dos estabelecimentos do exterior. Entregamos a chave à Relojoaria Mendonça, um estabelecimento bastante conhecido da cidade do Porto, e a chave da Casa Hortícola será entregue na próxima semana. Faltam apenas os topos dos edifícios da Rua Formosa e da Rua de Sá da Bandeira”, detalha Cátia Meirinhos, administradora executiva da empresa municipal GO Porto, gestora da empreitada.

 

 

Os comerciantes “estão expectantes de regressarem ao Mercado do Bolhão, apesar de estarem bem no mercado temporário”, aponta Cátia Meirinhos, notando que há um acompanhamento permanente: “Nós comunicamos quase todos os dias com os comerciantes no mercado temporário. Há uma articulação perfeita.”

 

“Ver isto tudo novo”

 

António Ferreira Sousa tem uma vida de trabalho na centenária Casa Hortícola, na esquina das ruas Formosa e de Sá da Bandeira, e não esconde a expectativa de tornar a ver o Bolhão de portas abertas à cidade. “Cheguei a duvidar, mas gostava de ver a inauguração. Era o que eu queria, ver isto tudo novo. Tenho esperança nisso”, confessa o comerciante, desfiando memórias de outros tempos.

 

Segura nas mãos imagens antigas do Bolhão e também da sua loja, tal como era antes da intervenção. António Ferreira Sousa demora-se a analisar os azulejos que revestem o interior da Casa Hortícola, que foram integralmente recuperados. Atento ao pormenor, dedica algum tempo a falar com a técnica que, ali mesmo, procede ao restauro de uma porta da loja. “Esta é uma obra muito importante. Não tínhamos aqui no mercado as comodidades que vamos ter agora. Eram outros tempos”, lembra o comerciante de 92 anos.

 

“Senti muito a falta”, admite a propósito do tempo de paragem imposto pela obra. “Dei algumas caminhadas. Mas o trabalho vai continuar”, sublinha António Ferreira Sousa: “Vendo sementes, plantas, bolbos. Importamos diretamente os bolbos de flores dos Países Baixos. Também temos sementes portuguesas.”

 

Assistir da primeira fila

 

Fazendo um curto trajeto pela Rua de Sá da Bandeira, passa-se pelo local onde atualmente se encontra a Relojoaria Mendonça para chegar à localização original do estabelecimento, onde o negócio há-de regressar a breve trecho. Os irmãos Jacinto e Maria José assistiram da primeira fila à transformação do Bolhão e confiam num rápido regresso.

 

“Não entrávamos aqui na loja há três anos e meio”, recorda Jacinto Mendonça, instantes depois de voltar a meter a chave à porta da sua loja. “É um regresso que nós temos interesse que seja o mais rápido possível, porque esta loja tem mais visibilidade do que a outra, tem mais montra. E gostamos mais deste local, porque está num cruzamento e é mais chamativo para os clientes”, explica.

 

O estabelecimento não chegou a fechar – limitou-se a atravessar a rua. “Quando saímos daqui trabalhámos logo do lado de lá da rua. Somos 14 pessoas e não podíamos parar assim muito tempo, porque se se parar perdem-se clientes. Não se pode parar, não estamos em altura de brincar aos negócios”, frisa Jacinto Mendonça, parte de uma linhagem familiar cuja dedicação ao negócio dos relógios remonta ao século XIX. “Tenho 72 anos e 59 de trabalho”, faz questão de dizer.

 

A Relojoaria Mendonça é um exemplo pelo seu muito bom estado de preservação, incluindo as caixilharias de ferro exteriores. Por isso, a intervenção no espaço, no decorrer da obra, foi mínima. “Sabia que estava tudo em ordem, agora é uma questão de limpeza e pequenas alterações que temos de fazer, por exemplo o ar condicionado, o sistema de iluminação”, enumera Jacinto Mendonça.

 

“Os clientes vão perguntando sempre quando é que o Bolhão está pronto. Todos perguntam. A obra lá dentro é uma obra grande, é demorada. É uma obra fantástica”, elogia o comerciante, mostrando-se reconhecido à Câmara do Porto pela intervenção. “Estava num estado de degradação total. Mas esta é uma obra para a cidade e para o país. O Bolhão é o cartão de visita da cidade do Porto”, vinca.

 

Abrir ao público no segundo trimestre de 2022

 

A empreitada geral de restauro e modernização do Mercado do Bolhão ficará concluída no final deste ano, indica Cátia Meirinhos. “No primeiro trimestre de 2022 iremos fazer os ensaios e dotar o mercado de todo o equipamento necessário para a atividade, com bancas para os comerciantes, toda a sinalética e material para a abertura. No segundo trimestre poderemos abrir ao público, apesar de ainda não haver uma data definida”, acrescenta a administradora executiva da GO Porto.

 

“Será na mesma um mercado municipal, de frescos e produtos alimentares, e será devolvido à cidade dotado de todas as infraestruturas que um mercado desta natureza exige”, esclarece Cátia Meirinhos, notando que grande parte dos comerciantes históricos vai regressar aos seus estabelecimentos após passagem pelo mercado temporário. “Haverá novos comerciantes no interior e inquilinos no exterior, no âmbito de um concurso público que está a decorrer, e no qual serão atribuídos novos espaços”, explica.

 

Em jeito de balanço, Cátia Meirinhos evoca uma obra “bastante complexa, quase de relojoaria”. “Houve uma recuperação de todo o edifício, que é um edifício classificado. Teve em conta o valor patrimonial, e todos os trabalhos foram executados com o máximo cuidado”, garante a responsável.

 

Um trabalho que aliou a recuperação física do edifício, a atualização do mercado de frescos e a restituição da relação deste equipamento com a cidade, aumentando a transparência, a acessibilidade, a articulação, o conforto, a higiene e a sua funcionalidade. A Câmara do Porto tem vindo a assegurar apoio aos comerciantes e inquilinos, compensando-os até ser possível o seu regresso ao mercado. Muito em breve, todos voltarão aos seus locais e o Bolhão tornará a abrir-se à cidade.

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