© Filipa Brito

O Bolhão nunca há de acabar

27 de abril de 2018

O velho edifício fecha amanhã para obras. Quando estiver totalmente reabilitado, volta a receber os sons da sua história. Até lá, o Bolhão encontra-se com o Porto no Mercado Temporário, de portas abertas a partir de 2 de maio. Na véspera do seu encerramento, ficam estórias e impressões de um lugar que há muito merece o restauro da sua dignidade.

 

 

Logo à entrada pelos portões da Rua de Fernandes Tomás, chia a pedra do amolador, ao passar uns bicos de tesouras de dois clientes na casa dos 70 e muitos. A este zumbido junta-se a música de dois artistas de rua, concertina e viola, mesmo em frente ao balcão da campanha de fidelização de clientes do mercado.

 

"Estando dentro do Porto, o Bolhão é um refúgio do rebuliço da cidade, uma outra vivência que nós conseguimos ter na Baixa", refere Pedro Baganha, vereador com os pelouros do Urbanismo e do Espaço Público e Património.

 

Em criança, frequentava o mercado com a mãe de forma esporádica, mas desde que veio trabalhar para esta zona da cidade, mais do que um local onde faz compras, é o sítio que foi escolhendo para almoçar. "Gosto muito de vir cá almoçar", diz ao Porto., enquanto passeia por entre as bancas fazendo compras de ocasião. "Esta coisa de ter os produtos frescos e ao lado o sítio onde eles são confecionados, de podermos estar calmamente sentados a almoçar numa esplanada aquilo que há pouco tempo vimos numa banca, acho que é um valor fantástico", confessa.

 

"Quer alguma coisinha?", interrompe uma vendedora.
"Quero caju", responde Pedro Baganha.
"Com sal? Com mel?"
"Com sal."

 

A conversa estava encetada e por estes dias o tema é incontornavelmente o mesmo. O mercado fecha este sábado para obras e os comerciantes vão mudar-se para um espaço transitório - o Mercado Temporário do Bolhão - localizado a escassos 200 passos do velho Bolhão e com abertura marcada para 2 de maio e a certeza da visita do Presidente da República, que nesse mesmo dia vem conhecer o local.

 

"Aquilo é muito bom, não podia ser melhor. Tem umas condições maravilhosas, mas o que eu quero mesmo é o Bolhão, conforme a maquete que está lá lindíssima", remata a vendedora.
"Ai já viu a maquete?" - indaga o vereador.
"Já. Está lindíssima, uma maravilha!"

 

Parando aqui e ali, as conversas são as mesmas, entre o saudosismo da antevisão do momento em que os dois portões de ferro vão ser encerrados e a ansiedade de uma nova vida, no mesmo lugar, há tanto tempo desejada.

 

A monumentalidade do edifício persiste, apesar das agressões do tempo que se arrastaram por décadas, agudizadas nos últimos 40 anos, e pelo sofrimento das estruturas, muitas em ferro fundido, a clamar por modernidade e inovação tecnológica.

 

"Nestes dias sente-se um aperto, é como quando a gente muda de casa", ouve-se dizer outra vendedora, recordando que ali está há 30 anos.

 

Ocupando um quarteirão central da Baixa portuense, o Mercado do Bolhão assume-se como elemento estruturador da malha urbana, abrigando dentro de si uma matriz de feira, assente num ritmo de sequências de pavilhões modulados e alinhamentos de tipologia clássica.

 

O todo gigantesco enquadra diferentes tipos de estruturas, entre pilares e consolas que suportam galerias e coberturas, alvenarias de granito e betão, num edifício com torreões cilíndricos dispostos nas esquinas, em contraste com a horizontalidade das fachadas que ostentam um frontão brasonado.

 

"O Bolhão é Porto, é este skyline especial, é este sotaque das vendedoras, um microcosmos muito representativo desta genuinidade que a cidade tem e que lhe confere este caráter forte e indomável", descreve o vereador, arquiteto de profissão.

 

O projeto daquilo que será o novo Bolhão é conservador, mantém a traça original, preserva o mercado de frescos e introduz diversas soluções tecnológicas para torná-lo mais seguro e confortável para comerciantes e visitantes, com todos os requisitos que os tempos agora exigem.

 

No primeiro andar do edifício, ainda há tempo para dois dedos de conversa com mais uma vendedora, também ela com saudades antecipadas daquela casa que é também sua há mais de 45 anos, onde criou filhos e netos.

 

"O meu neto dizia-me assim há dias: ó vó, queres ver a minha fotografia? Era ele, sentado no meio do repolho".
E continua a história.
"Lá foi dizendo, olha que o Bolhão também é meu, fui criado lá". "E tem razão, não tem? Já o pai dele foi criado aqui", conta enquanto avia uma penca de bananas.

 

Mesmo à saída e num último relance que abrange todo o primeiro piso, o olhar fica suspenso no pulsar daquele lugar. Uma senhora com um cesto de meias para venda apercebe-se, e pensando que observamos o fundo do mercado, que já não tem nada, diz:

 

"Vê aqueles ferros que estão lá ao fundo, vê? Tem quase 20 anos que os puseram. Na altura disseram que era para fazer obras? até hoje".

 

Neste sábado, 28 de abril, pelas 13 horas, encerra esta grande casa e, às 19 horas, fecham as portas das lojas do exterior. Protegido por Fernandes Tomás, a norte, Alexandre Braga, a este, Formosa, a sul, e Sá da Bandeira a oeste, o colosso embebido da alma invicta vai finalmente entrar em obras. Fica a certeza de um renascimento, quase um novo parto, este totalmente assistido e desejado por toda uma cidade.

 

 

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