© Filipa Brito

O Bolhão que é feito de pessoas

26 de abril de 2018

"Eu estou cá há 69 anos, é uma vida. Ainda vim no tempo em que se vendia manteiga avulso, que vinha de Viana, todos os dias", diz uma das vendedoras mais antigas do piso superior do Mercado do Bolhão, enquanto mostra um pedaço de bacon, "do bom", a Cristina Pimentel, vereadora dos Transportes e da Fiscalização e Proteção Civil da Câmara do Porto

 

 

Pouco antes da hora de almoço, a responsável voltou a percorrer os corredores do mercado para compras habituais. Afinal, é assídua freguesa desde os tempos de menina. Ainda na banca dos enchidos, enquanto paga, a vendedora lembra, pois isto da idade não parece afetar a boa disposição e memória dos comerciantes do Bolhão:

 

"A senhora depois vai lá, não vai?" - pergunta.
"Vou sim senhora".
"Olhe, desce as escadas rolantes que eu estou logo à entradinha", remata e entrega o saco à freguesa.

 

Descendo ao piso térreo, a próxima paragem é para comprar ervas aromáticas, especiarias e azeitonas. Estamos perto da hora do almoço, o mercado está cheio: muitos turistas, de tantas nacionalidades, a maioria de máquina fotográfica em punho a registar os velhos corredores de aromas, cores e sabores, provavelmente sem saberem que no próximo sábado as portas serão encerradas durante dois anos para obras.

 

"Quero azeitonas", diz a vereadora, depois de escolher orégãos e sementes de chia.
"Com ou sem picante, amor?" - pergunta a vendedora, bem ao estilo do lugar, e convida logo a aprovar a iguaria, antes da decisão.
"São preparadas por você?"- questiona Cristina Pimentel.
"São sim e, olhe, quando formos lá para cima [Mercado Temporário], vamos ter mais variedade", acrescenta, procurando trocos no avental.
Depois de pagar, novamente a lembrança: "Obrigada, meu amor, e até dia 2".

 

Já diz a sabedoria popular que "o seguro morreu de velho e a prudência foi ao enterro", pelo que, apesar de tantos avisos e até da campanha municipal de fidelização de clientes, o boca-a-boca tem o seu lugar.

 

Por fim, a broa, da tradicional, claro! "A mais compacta", pede a vereadora, muito habituada à lide das compras naquele espaço que frequenta desde pequenina com os avós.

"Só uma chega?" - negócio é negócio. Ao aceno afirmativo com a cabeça, a conversa continua.
"Lá vamos deixar o nosso Bolhãozinho, mas eu também quero obras no mercado", e justifica logo de seguida para que não subsistam dúvidas dessa necessidade, há tantos anos aguardada. "Não quero que os clientes venham cá comprar e me cheguem aqui e caia uma coisa, não é?", remata.
Novamente e para que ninguém esqueça, mais um freguês, mais um aviso.
"Puseram-nos ali um mercado de categoria, muito bonito, minha senhora, e as pessoas vão aparecer todas lá".
"Vá lá na quarta-feira que eu quero toda a gente à minha beirinha", convida antes de dirigir as atenções aos próximos clientes, estes estrangeiros.

 

No final, Cristina Pimentel vai ao balcão da campanha de fidelização dos clientes do Bolhão (situado na entrada pela Rua de Fernandes Tomás), para receber os carimbos a que tem direito na sua caderneta e, antes de sair, volta a olhar para a alma que fica atrás de si.

 

"Eu não em recordo de mim sem o Bolhão. Eram outros tempos, um mercado muito vivo, mas que mantém, ainda hoje, essas características", referiu ao "Porto.".

 

"Vai ter saudades? "

 

"O Bolhão não é só o seu edifício; são também as suas pessoas e a maior parte delas continuam aqui e são elas que conferem a alma".
E passados dois anos? "As pessoas vão regressar e elas são as mesmas. A alma não se perde, porque as pessoas não se vão perder".
 

 

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